Liberdade ou solidão

- Qual é mesmo o seu nome, mocinha?
- Karina...
- É mesmo! Karina. Você tem ideia do que significa seu nome em Italiano?
- Bem...acho que não. Talvez...
- Sempre achei que fosse carinhosa, cara...mas um dia eu descobri que era embarcação.
- É mesmo? (num deslumbramento que transpareceu no meio sorriso inteiramente entregue que deixei escapar no canto da boca).
- Eu achei um horror! Imagina...
- Um horror? Mesmo? Eu acho lindo. Achei fantástico poder ser uma embarcação. Obrigada por me contar...adorei saber. ( E os olhos já queriam pular do rosto, brilhando como se embebidos em óleo vegetal).
- Pensando bem, é fantástico mesmo. Entendi tudo. Gostei disso. Você acaba de se mostrar uma menina profunda...


Há dias venho me perguntando o que vim fazer aqui: no mundo. E esta é uma dúvida que sempre persegui, desde criança. Ontem, no final da noite e depois de dias fugindo de calcular o peso que vinha carregando por sobre os ombros, senti um vazio tão maior que eu  que me permiti mergulhar em algumas garrafas e  sem me dar conta saltei da cama e era de manhã. Vaguei no metrô recitando um mantra sobre a coragem não ter por hábito perguntar nada à vida, abrindo todo dia os olhos pra acordar. Me sentia tão contemplada pelas palavras daquela canção que avisei a alguém que considero muito - considero tanto que às vezes sobrecarrego, encurralo, pressiono, afasto, fato que me esvazia ainda mais - que eu poderia sumir por uns dias, pois queria me isolar, ficar invisível. Amyr Klink me entenderia, com certeza. A gente avisa que vai sair pro mar quando tem medo de se afogar, mas tem uma certeza do retorno muito maior que o medo que sente. 
Eu já sentia os respingos salgados no rosto e o gosto de ressaca quando o sol transpassou a janela do vagão e fritou meu silêncio no banco azul preferencial gélido do ar-condicionado desregulado. Eu, de preferência, teria ficado na cama chorando mais umas horas, olhando pras conchas que gosto de colecionar, categorizando cenas dramáticas do meu cotidiano e etiquetando cada uma segundo ordem cronológica, cor, profundidade, nível de reflexão filosófica, mas já era quase Santa Cecília e as ruas fétidas de merda da semana inteira estavam prontas pra me receber. Eu não tinha ideia de como enfrentar aquela maré, mover a  âncora-pés-na-sandália-cor-de-laranja, içar as velas-olhos-inchados e ir adiante. Mas fui. E por algumas horas esqueci de tudo, da dor, do buraco no cerne das entranhas, da ânsia, do revés da beleza exterior, e ouvia as vozes das pessoas, e deixava a alma conversar com essas vozes sem medo de estar permitindo a aderência a uma patologia que poderia tragar meu corpo exausto como os craqueiros fazem com as pedras em seus cachimbos prateados de espantar tristeza. 
Eu dizia da piedade, das cenas cotidianas que nos sensibilizam, das narrativas que podemos nos permitir conceber a partir da leitura de uma imagem/cena, e como uma onda gigantesca de arrebatamento ouvi uma voz cândida sobressair-se: Qual é mesmo seu nome, mocinha? E era uma senhora branca de sorriso leve me puxando pelo braço a caminho do elevador entre as cortinas brancas do espaço expositivo. E eu soube, de novo, e com um tom de novidade, que a minha trajetória toda se justificava pelo simples fato de eu ser uma estrutura flutuante destinada ao transporte de pessoal ou carga: embarcação. E todo barulho interno foi se preenchendo não mais de vozes que dialogavam com a minha alma, mas pessoas inteiras das quais eu havia me tornado interlocutora haviam me trazido de volta de uma viagem longa pelos sete mares do meu imenso "não sei o que tá acontecendo". E então eu aceitei que vim aqui pra isso.
 Karina, que leva de uma margem a outra da existência alguém, algo, uma palavra, um amor, um cacho de bananas, uma notícia, um som, um sono, um sonho, uma broa de milho, uma garrafa de rum, uma ilusão sedutora, um vestido de renda, e que aporta num cais incerto, aquieta um pouco, parte de novo, outro mar, o mesmo sol, o mesmo sal, o desejo da volta, alguns piratas, uns marujos de cabine, uns pescadores de homens, umas mulheres viúvas abandonadas com cestos trançados, uma brisa meio Caymmi. O desejo ainda maior de ir além da costa, sobretudo. O casco batendo nos corais das realidades estanques, nas conchas das paixões ensimesmadas, nos bancos de areia dos egoísmos, grãos que desmoronam ao mais sutil esbarro. Eu vim com essa pretensão de liberdade atrelada a esse fardo de solidão. E o tempo deve esclarecer a rota mais brevemente que imagino.
Vez ou outra, quando é noite e cismo de ouvir canções pra olhar o céu e me aproximar do que era céu pra mim lá no interior, vem um vento que arrasa tudo, vaza por entre as cortinas não tão brancas das minhas memórias e sussurra como que me avisando que tenho me questionado demais sobre o incerto já sabendo que o incerto é minha bússola. E agora que é noite de novo e já sei o que diabos vim fazer aqui, no mundo, já creio na possibilidade de me aceitar profunda, uma menina que vai à fundo nos anseios de mulher, que ainda talha no interior de si a madeira do veículo, mas observa os limites entre a liberdade e a solidão que toda embarcação deve conhecer para tomar como seu o mar inteiro. Agora estou mesmo muito certa de que não existe carta marítima que oriente quem se conduz sem saber o que abala sua estrutura.
Parece-lhes confuso meu pensamento? Tudo isso, sobre o mar e os mistérios que nem eu mesma conheço e como é preciso me apropriar do papel de interlocutora e transportadora de outrem? É preciso existir num mundo antes que o existencialismo nos impeça de entender o quanto navegar é impreciso! Claro. Tão simples. Parece-lhes frágil e desconexo, independente, adverso? Espero que não, pois assim é uma embarcação que acaba de se saber evolução de um tronco nas mãos do artesão. A questão de agora é: que tipo de embarcação em mim eu concebo? Pois bem. Espero que alguém me conte da próxima vez em que eu me levantar da cama como se tivesse naufragado na noite anterior...

Comentários

  1. Não importa qual tipo de embarcação... Importa que flutue nas águas e sinta o vento... E respire bem fundo, agradecendo por estar onde você deveria estar naquele momento!

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  2. Fico feliz com a sua permeabilidade em escutar, ressoar, compreender. A embarcação não é hermética, apesar dos fechares das vigas e madeiras para não afundar. Entra água, entra sal, entra sol, chuva e vento, e veja só que lindeza: o vento quando passa por buraquinhos, assobia. Tem musica a sua embarcação. Eu não sou ninguém pra validar seus pensamentos ou dizer qual o tipo de karina que você carrega, isso é coisa só sua. Mas do que eu vejo, acho graça - não essa que a gente ri, aquela que nos esquenta e da vontade de acenar, querendo que fique, quando vai embora.

    Te balanço o meu lencinho colorido, guardando um pouco do que te deixou pra trás quando o porto troca...

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