Elucubração em torno da palavra Baque

ba·que
Substantivo masculino.
Estrondo que faz o corpo que cai ou embate.
Queda. Desastre súbito. Pressentimento.
Palpitação sentida por quem pressente algo.


Pressentira a chegada do sono, abraçando com os dedos o pequeno frasco de colônia de maracujá. A fragrância levava-o de volta, dez anos antes, à torrente de frescor das experiências de um tempo em que tudo parecia seguro e certo, tempo quando era possível pensar as fragilidades como delicadezas que a vida inventava para enfeitar de intensidades o cotidiano aparentemente linear. Dez anos antes – considerara naquele instante frio da alvorada – fora indiscutivelmente feliz. Havia lido dias antes em algum lugar que infligir dor a si próprio em um sonho era sinal de culpa, remorso ou desejo de mudança. No sonho, Ágata dançava despida de pejo em seu colant rosa e tutu de tule, escorregando pelo meio da rua, trombando em um caminhão de laranjas sem sequer se arranhar. Absorto no delírio onírico, corria em direção à criança, abraçando-a, apanhando as laranjas que derrubara no chão, bombardeando-se com elas. Lançava com toda sua força enormes laranjas maduras contra o próprio rosto, o peito, as pernas.
 Acordou no chão do quarto, passada a hora do almoço, embrulhado na colcha branca de flanela. Levantou-se da cerâmica enregelada, evocando involuntária e mentalmente as críticas de sua mãe, que outrora enaltecera de forma agressiva – em situações da vida cotidiana – as limitações das quais era possuidor: “Tu vai ficar velho e não vai conseguir descascar uma laranja? Tem de usar uma faca boa e ver se a casca não está murcha! É um imprestável mesmo, que nem teu pai!”. Fora a mesma ladainha desde os primórdios de sua existência sacal, cria. Era sim possuidor de limitações e agarrava-se a elas com apego, como se essas junto ao frasco de perfume fossem as únicas coisas que de fato possuíra: isto digo, pois, na paúra de seus dias, eram as limitações suas pobres companheiras – fiéis e protetoras – das quais não pretendia se livrar. Fazia mais coleciona-las que apartar-se delas.
Ergueu-se com olhos remelados e cabelos desgrenhados, recolheu do chão o nootebook que se encontrava apoiado em um volume reeditado de Quintana, abrindo a janela do quarto e sentindo como se fora uma daquelas manhãs do poema que principia a obra do autor: Aquela manhã tinha cores vivas como um livro que ele poderia abrir numa página nova, visto que toda manhã abria os olhos esfregando-os com as palmas das mãos, levantava da cama, olhava o espelho fazendo caretas com a musculatura da face. Fazia o café, tomava ainda fervente enquanto pensava no que comporia seu desjejum. Num dia lia o jornal, no outro regava as samambaias nos xaxins dependurados no varal, no outro ainda passava a ferro as meias e lençóis. Vestia um lance, abria a porta do apartamento. Ia até o elevador e voltava. Ia, puxava a porta para si e soltava. Ia e voltava toda manhã. Quando cessava de tentativas de tomar o elevador, arriava pelos sete andares até o térreo via escada. O problema é que não era poema de Quintana – como muitas outras situações, coisas e pessoas no universo –, não era manhã e não havia uma página nova, não a partir de sua perspectiva descrida.
Como dito, a vida do homem havia sido felicidade até que anteparos de revés tomaram-no pungentemente, isto é, ele se lascou de um jeito irreversível. De nome Ítalo, quase cinquenta anos, barba cerrada, estatura mediana, professor de antropologia aposentado por invalidez, leia-se fracassado por ausências impreenchíveis, havia adormecido ao amanhecer e acordado num início de tarde que estava mais pra início de era. Era o dia de tornar-se algo outro, oposto àquele arremedo de existência. Cabiam nele todos os neologismos imaginados pelo mais subterfúgico escritor. Era a era de desfazimentos, recabimentos, refantasias e dessofrimentos.
 Ponderou como em todas as outras manhãs, no batente da porta do apartamento. Eram quatorze passos da porta ao fim do corredor que perpendiculava com o elevador e a cada passo recordava as setes notas entoadas no piano na leçon deux do método Royal que vira Luiza ensinar incansavelmente à Ágata na enorme barra de exercícios ancorada em espelhos que ocupava a sala de estar quase que inteira. Foi esquecendo aos poucos do profícuo sonho da qual acabara de despertar enquanto pregava e despregava a planta dos pés no assoalho envernizado. Anos antes, acordara de um sonho similar com o telefonema de um amigo de infância, que lia ao telefone uma carta deixada por Luiza – após seu repentino sumiço que totalizara 24 horas – com a notícia de que a mesma havia fugido para Santiago com seu amante, um pianista jovem e pretencioso que conhecera em uma de suas turnês na passagem por Saint-Martin-de-Valamas, levando sua filha após uma das piores brigas que um casal poderia ter tido. Ela quis deixa-lo por suas manias e limites, ele quis os espelhos e a barra fora da sala de estar, com a desculpa de que durante a madrugada, quando passava pela sala para ir à cozinha buscar água, ouvia o piano tocar sozinho e uma bailarina fantasma valsar pelo hall.  Não deu outra: ela partiu levando a pequena e ele partiu o espelho em partículas utilizando a própria barra de exercícios que arrancou da parede aos solavancos. Ninguém pôde intuir como que num presságio que o avião – em que viajavam Ágata, Luiza e o jovem pianista – cairia das alturas da novela dramática. Entretanto, caiu desgraçadamente e não sobrou nem mala preta pra contar tragédia. Caiu também a pulsão de vida do pobre abandonado. Um baque.
Ítalo, diante o baque quis fugir para as colinas, chamar por sua enticante mãe, abraçar um cachorro engarrafado como aconselhara o Poetinha, mas só fez apropriar-se de mais vezos e tiques. Desde o ocorrido repensara seus vícios em solilóquios, tentara vencê-los e suplantar seus medos nada efêmeros. Vez ou outra escutava um piano e estabacadas de um corpo leve por sobre o taco de um dos apartamentos. Supunha que tais estabacadas eram provenientes não mais do hall de entrada de seu apartamento, mas do nono andar.
Numas vezes colocara um disco na vitrola antiga fazendo ecoar por todo o andar Sua Estupidez na voz de Gal, na tentativa de sufocar as estabacadas insistentes que vinham de fora. Noutras vezes topara a moradora do nono andar pelos lances de escada, magra, de longos cabelos castanhos normais, cabelos lisos e normais desses que se deve lavar com xampú pra cabelos normais. Notara sua descida e subida esguia por cada lance das escadas em cada uma dessas topadas, com a disposição de um triatleta, sempre desligada de vaidades em sua malha preta. Observara-a também despida de qualquer pudor na malha, recordando o jeito de Ágata e, por conseguinte, o jeito de Luiza.
Nesse ir até o elevador e voltar ininterrupto da morosa rotina deixou virem à tona mais ideias aleatórias sobre as bailarinas espalhadas pelo mundo que a seu ver, expressavam sua dor tendo como mediadora a arte, elevando-se com o impulso dos pliés, vomitando rancores em grand-jetés, expulsando as angústias nos relevés. Ponderou e concluiu que muito embora fosse de beleza irrefragável, a dinâmica corporal imposta pelos movimentos do ballet não deixava de sobrecarregar os pés dos cisnes delicados em contato com as ponteiras de gesso e os músculos das costas arqueados, na  opressão dos joelhos, no contrair dos abdomens:
Relevé, mas não relevam! Pisam firme e também não revelam nada em sua elevação. Ai de quem tenta alcançar o passo. Não é dança pra qualquer sujeito.
E a cada um dos quatorze passos arriscados pelo corredor ao longo do dia – que sempre encontravam o tom de verde dos olhos da moça do nono andar – deparava-se com a imagem de Luiza no Municipal, quebrando tudo no bom e velho Quebra Nozes do natal burguês de toda boa companhia de ballet, e da mania que ela tinha de cortar em filés finos o peito do Peru na véspera do nascimento do menino Jesus, mesmo sabendo que toda a família preferiria um pernil de porco com farofa de miúdos. Pensava em como amar outra mulher que não aquela, que não abria mão de declarações de amor em inglês, alemão, francês. Pensava imediata e raivosamente que fora maldita sua decisão, que caíra impulsiva e imaturamente numa declaraçãozinha de amor meia boca em espanhol de um jovem também cheio de manias para virar pó junto com a coisa mais preciosa que já haviam lhe dado na vida: a filha. Passou pelo dia perdido, emaranhado nas linhas tênues que habitam entre o agora e antes.
Nem viu anoitecer, mas notando o escurecer das horas que debruçavam sobre seus travesseiros de algodão azul claro com frisos de viés azul marinho algumas rajadas da luz da rua – essas luzes provenientes de salas de apartamentos acesas, outdoors, postes e antenas luminosas – rememorou a tia astróloga que, certa feita, contara que o mundo qualquer noite daquelas cairia do céu da infinitude, descolando das pregas do incalculável pra cair no colo de alguém que não tivesse cumprido direito com as suas obrigações ou que tivesse traído o curso natural do destino desvalorizando os próprios feitos.
Dissera-lhe que haveria uma fila dessas gentes, sentada na cama ou numa poltrona de veludo empoeirada da sala, insone, esperando algo que não saberiam o que poderia ser, mas saberiam que aconteceria, e então: catapluft! Cairia o mundo num baque só, em seus respectivos colos, como caiu o índio mexicano numa avenida do méxico em Amar A morir e como caem os aviões nas catástrofes. Avaliando seu potencial relapso, Ítalo achou possível ter deixado de cumprir com algum contrato social ou desdito em ações algo que implicitamente possa ter sido acordado entre ele e seus pares. Concluiu já ter também desvalorizado tudo que já tivera feito em seus quase cinquenta anos de ensaio do que viria a ser seu solo apoteótico.
Tentou entender por qual motivo Luiza teria deixado um recado nas mãos de seu amigo de infância em vez de contar-lhe sobre o abandono que viria, sobre suas novas aventuras amorosas, sobre o fim de uma história de idas e vindas, até ser interrompido por uma cena bisonha. Sem despregar os olhos da imensa vidraça da sala, puxou de dentro da gaveta do aparador um caderno de brochura e uma Bic® azul, tendo receio de não ter como descrever em detalhes as possíveis cenas das quais seria testemunha. Escreveu quase que psicografando, de olhos vidrados, perplexo:
            “Levanto-me agora do sofá em que intuitivamente fui me sentando minutos atrás e ao me aproximar um pouco mais do vidro da janela desta sala, creio ver uma mulher se aprontando para pular da janela do nono andar do prédio em frente, mas não há de ser, afinal, quem é que vestiria tão bela camisola verde hortelã para jogar-se andar abaixo? Aliás, que me importa se alguém está pulando da janela? Ninguém pediu minha opinião sobre tal ato e se me pedisse eu pensaria seriamente em não dar, visto que cada um sabe de si, cada um que queira o que quiser e que não me amolem. Já vi coisas demais, ouvi, sofri, senti coisas demais para mover-me.
Ensaio sair daqui, me concentrar em outra coisa, escovar os dentes mas me imagino exasperado como se fora o dono do universo, cuspindo a espuma de hortelã contra a porcelana do lavatório. É como se eu mesmo empurrasse a mulher da janela de minha boca contra a superfície branca cor de necrotério imaginário. Olho dois andares acima para continuar a vê-la. Não consigo não olhar. A moça do nono andar do meu prédio deve estar vendo tudo isso de frente, sem erguer os olhos. Verá comigo se dissolver uma existência? Se a velha não tivesse me dito do descolar das pregas e do baque do mundo no meu colo, talvez eu conseguisse impedir a mulher de sujar sua camisola de sangue vermelho vivo e deixaria de acumular mais uma obrigação não cumprida.
A propósito, é obrigação minha impedir um baque para não ser alvejado por outro? Penso já no baque em que terão os vizinhos da mulher quando souberem que a vi pular e não me movi, pois cri na possibilidade do baque da vida virar de vez, fazendo a ela um bem e a mim uma indiferença. Eu a salvaria se tivesse a certeza certa de que ela me resgataria dessa minha impaciência, desse roer de unhas intermitente, se me rasgasse a socapa dessa mania de me fazer justificável com versões indefensáveis, porém sinceras. Mas só se fosse certeza certa. Tinha eu a obrigação de ser outro para que Luiza não me deixasse levando consigo Narcila? Tinha ela o direito de me privar de fazer parte da dissolução de suas existências, reduzindo-me a expectador como sou agora, diante de mais um baque? Num piscar de olhos vejo-a mais de perto. Arcabuzaram-me os bicos de seus seios sobressaltados no cetim. Pede-me para que eu não vá a lugar algum com lacrimejo nos olhos, segurando o mundo com suas mãos brancas de unhas azuis. Espano do meu colo suas lágrimas e o farelo do pão que o diabo amassou que tenho comido, dou-lhe as costas, abro a janela lateral que finda às margens da varanda, estico as beiras do meu pijama verde hortelã para desamarrotá-lo, me aprumo, e ela clamando com os olhos para que não a deixe lá, vendo-me vê-la para logo menos não vê-la mais, nem ver mais nada, ou ver tudo de um outro ângulo, ou não. Entendo o motivo pela qual não pudera minutos atrás escovar meus dentes: Não a cuspiria contra a porcelana para o outro lado da infinitude, pois era a minha existência que já estava cuspida e, ela me vendo da janela era como se morasse entre meus dentes, movimentando minha saliva, fazendo o creme dental reagir em minha língua me causando ânsia.
Sorrio e ouço um batuque muito característico. Deixo de lado o caderno e a caneta. Já não posso descrever...”
 Os pés de Horácio quase que trançavam-se no ar, e ele girava como uma bruxa dos Grimm, como se fora calçado de sapatos de ferro em brasa, e já não mais sentia o amargor do molho pesto do jantar que jamais comera, com creme dental que jamais utilizara. Não sentindo a obrigação de impedir o baque de mulher alguma, nem de continuar experienciando o esfacelamento de mundo algum, nem o próprio, sustive o olhar envidrecido até ser encontrado sem mais vestígio de maracatu. Baque não foi senão uma palavra a ser tocada como jamais tocaram seus dedos a superfície das certezas certas, mesmo tendo as desejado com sangria.

Enquanto questionava suas obrigações mal cumpridas alguém dormia abraçado com alguma mulher no nono andar de seu prédio e a mulher do prédio em frente não era senão ele próprio pedindo a si para ir embora para junto das duas únicas mulheres de sua abjeta vida. Enquanto ignorava acordos implícitos e contratos sociais alguém contava os grãos da ampulheta do seu tempo na terra, alguém compunha uma valsa que ele achava brega, mas que deu dinheiro ao compositor. E sobre o mundo que caíra em seu colo concluiu que já não havia com o que se preocupar, pois em frases consonantais cairia no colo do mundo, impune, para dormir todas as noites de sono que antes perdera, pensando em como deixar de se obrigar a existir. Era a apoteose do baque solto, sem ser preciso descer as escadas, sem ir até o elevador e voltar. Era agora quase um personagem de Suassuna, na redenção, num maracatu atômico donde vinham tudo quanto era partícula. Era a redenção na ensurdecedora orquestração dos folguedos.

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