Primeiro ato: Vim


Foto: Juma

Era uma vez que eu saí do armário. Foi no carnaval de 2017. Vamos lá, por partes: na verdade, vinha me preparando pra esse momento havia alguns bons anos. Depois de me perceber em uma cidade gigantesca cercada por amigos muito ocupados, em um trabalho que amava – porém, que me exigia muita força e uma capacidade de me reinventar maior do que eu dava conta naquele momento da vida – longe da família, distante da tranquilidade necessária pra escrever, compor, estudar e, pra acabar de lascar, imersa em uma trama relacional que consumia até minhas últimas gotas de tolerância, – e lidar com as especulações, olhares e julgamentos era mais desgastante e dramático do que a própria trama – decidi que era hora de recalcular rota. Foi em novembro de 2016. Estava frustrada com o fato de estar feliz apenas com minha carreira de psicóloga e pausada em todos os outros campos da vida. Precisava reaver paixões e desatar as correntes que me prendiam a um mundo sisudo, de responsabilidades e atribuições que eu nem sabia se queria.
A artista estava silenciada desde maio daquele mesmo ano, mês exato em que deixei o trabalho como mediadora cultural e voltei pra psicologia  meio a contra gosto mas de coração aberto, segura de que seria ótimo conhecer mais um desdobramento da minha atuação, motivada a explorar e conhecer meus limites  no cuidado da pessoa idosa. Apesar de encontrar no novo trabalho tudo o que precisava pra me realizar e aprender mais uma lição sobre humanidade, doía não ter saúde emocional para criar. A escritora brigava com os vícios de linguagem e de escape,  sim, alguém estava bebendo mais do que devia pra suportar a grossura e a agressividade da vida na selva de pedras e tinha crises de pessimismo – dormia e acordava com poemas carregados de melancolia embaixo do travesseiro sem desfecho, alinhavados à obrigação de produzir para garantir um lugar ao sol – lugar que não existe, nem pra mim, nem pra Cacaso, nem pra Pessoa, nem pra escritor nenhum. 
A essa altura já não lembrava mais do desenho de uma semicolcheia, cantava debaixo do chuveiro antes de chorar – que é coisa que adulto faz quando mora sozinho longe de casa – e me encolhia nos cantos da Capello* pra admirar pessoas incríveis que conheci nos 4 anos e alguns meses morando em São Paulo. Era fato que havia sido muito feliz e bem sucedida naquele lugar, havia conquistado alguma independência e descoberto facetas minhas que jamais teria acessado se não tivesse caído no mundo. Mas era pesado: havia me dado conta de que envelhecera vinte anos nos dez que vivi fora de casa. Não dava mais.
De novembro a fevereiro – mês em que parti de mala e cuia, como dizem – me recusava a conversar sobre muita coisa com a maioria das pessoas que estavam ao meu redor. Queria administrar tudo que estava sentindo e ir me desfazendo da bagagem que me impediria de trilhar um novo caminho. Vendi móveis, doei roupas e calçados, rasguei documentos e fotos, devolvi pertences, excluí contatos, saí fazendo uma via sacra em que me despedia de quem importava me despedir - e teve gente que ficou de fora, uma pena, mas eu não tinha tempo nem disposição. Entreguei as chaves da casa, o emprego, os pontos. Deixei partir e silenciei o falatório que tomava volume nas coxias. Ninguém sabia o que acontecia dentro de mim, – nas minhas vontades, deslizes, erros muito bem escondidos e acertos comemorados discretamente – tampouco fora de mim – no que eu vinha vivendo, nos meus vínculos, nos meus contratos e combinados afetivos. E acredito que vão continuar sem saber porque de tudo isso o mais importante é o produto desse momento de ruptura.
Eu havia “perdido” meu maior parceiro – na vida e na arte – e me dei conta de que era mais madura do que imaginava e se não me cuidasse, apodreceria. As minhas palavras e posturas haviam me colocado exatamente onde eu queria estar: no lugar de quem fez escolhas certas. Não aguentava mais pegar ônibus e metrô lotado, lidar com uma solidão que não tinha utilidade nenhuma. Não tinha mais tempo de vida pra gastar fazendo coisas que eu não queria e não cabia mais em mim de tanta vontade de mudar tudo, ir embora. Estava me perdendo, encontrando novos sentidos no que sempre fiz, deixando de ser uma porção de coisas, me lembrando das tantas coisas que havia criado e vivido até então e precisava externalizar aquilo. Parafraseando Djavan, tudo que se passava por ali não passava de um naufrágio e tinha aprendido a nadar pra nada. Nadava, nadava, mas era água demais que precisava vazar, transbordar.
Como disse antes, o “sair do armário” foi um processo que seguia seu curso lenta e cuidadosamente. Guidi*** – minha central de força carioca – trazia sempre alguma dica valiosa sobre ser e estar no mundo a cada encontro que conseguíamos ter e os dias no Rio – em janeiro de 2017, antes de vinda pra Ilha – tinham clareado as ideias como a muito tempo não ocorria. Eu queria compor, queria tocar, cantar, escrever cada vez mais, desenhar...queria tudo ao mesmo tempo, agora. E só queria tudo isso com tanta força porque sabia que podia sustentar aqueles desejos todos. Depois dos dias quentes no Rio – e tava muito, mas muito quente, mesmo se comparado ao calor que geralmente faz em Ilha – me senti pronta pra me valer das circunstâncias e sair do casulo de vez. Malas no carro do Rodolfo**, algumas despedidas lindas das quais nunca vou esquecer, alguns planos na cabeça, 432 tipos de medo aprisionados dentro do estômago e pé na estrada: eu estava voltando pra uma cidade que não conhecia metade da mulher em que eu havia me transformado.
Ilha Solteira era o destino, afinal, a boa filha a casa torna, não é? Não poderia ir pra nenhum outro lugar senão pra querência, lugar onde fui parida – como bradou Vitor Ramil, aquele compositor gaúcho sem o qual considero ser impossível sofrer dignamente desde 2013. Mudar a cama de lugar, encher o guarda-roupa, ver o pôr-do-sol sem pressa, caminhar pelos passeios e ir deixando a vida se realocar fez com que rapidamente eu entendesse do que se tratava aquela mudança. Já tinha morado em tantas casas, passado por tantas paisagens, sempre só e ainda assim, aquela mudança era a maior de todas: Eu teria que me reencontrar com a Karina de 10 anos antes e tirar a prova, conhecer quem era a Karina de agora. Veio o carnaval e com ele a revolução. Eu tinha vindo pra dizer que era outra, diferente, mas ainda era a mesma. Precisava falar do que me havia arrebatado e do que havia sobrado de mim. E só podia fazê-lo se fosse por inteiro. Só o faria se fosse sem discrição, aos berros, aquela coisa de chegar chegando, sabe? Então.
Como Céu em “Baile de Ilusão”, me colori para lembrar o que vivi, para contar o que chorei, pra espantar todo meu pranto e rebelei meu coração em preto e branco no Carnaval, pra na quarta-feira de cinzas avisar que eu era artista mesmo e que não tinha volta. Recebi um convite de Rodrigo Mariano****  – amigo dos tempos de Banda Marcial, isto é, amigo dos tempos dinossáuricos – pra escrever sobre Arte e Cultura no jornal que estava desenvolvendo e aquilo deu um fôlego que só vendo. Abracei a ideia e ocupei o lugar que me era justo: o de cidadã ilhense que jamais deixara de ser. Sentei e desengavetei tudo quanto era projeto encubado e sebo nas canelas. Refiz o layout desse blog, – que tava mais pra palacete abandonado que pra plataforma de interação –  mexi meus pauzinhos e abracadabra: nasceu o “Vim Pra Dizer Que Fui”. Vim pra dizer que fui é sobre esse meu caminho, cheio de desvios, encontros e reencontros. É sobre ter sido uma porção de coisas, estar sendo mais uma porção, desejar e trabalhar para ser tudo mais que for possível. Mas isso é assunto pra várias conversas, garanto. Aliás, mais que conversas, uma vez que esse projeto é multilinguagem. Que diabo é isso? Vamos vendo com o tempo. Posso dizer que nas coisas que fui, tenho sido e ainda posso, há muito sobre música, literatura, artes plásticas, fotografia...
...O que importa mesmo é que vim. Passei por debaixo do arco-íris unicórnico da existência, rasguei as vestes da timidez e da insegurança e assumi que sou bi: biopsicossocialmente predisposta a criar, partilhar e viver de forma intensa. Mergulhei na água doce dos meus potenciais e mais que nunca, me sinto pronta. Pronta pro que der na telha! Essa é só uma dica do que vem vindo: Vim.


*Casa Capello, um misto de residência artística, casa de shows, batcaverna dos jovens expoentes da nova música popular brasileira (e não só paulistana) e casa da gente quando a gente tá longe de casa, sob o comando do compositor e produtor Edu Capello, em suma: lugar de amor e arte.
**Rodolfo Machado, Engenheiro Elétrico pela Unesp de Ilha Solteira, ex Alcatéia, amigo-irmão-tecladista-gênio.
*** Guidi Vieira, cantora, compositora, atriz, blogueira, parceira de composições e piras, garota carioca, swing sangue bom!
****Rodrigo Mariano, editor e diretor do Portal eletrônico e jornal impresso Hoje Mais Ilha Solteira, ao lado da fotógrafa Juma (Juliana Mariano)



Comentários

Postagens mais visitadas