O Clarim tocou pra avisar...

Ao longo dos últimos anos tenho tido a sorte de encontrar pessoas que, direta ou indiretamente, me empurram pros meus abismos. São pessoas interessantes, imprescindíveis, que ora se mostram por meio palavras de incentivo e me escalam pro elenco de estrelas importantes na constelação da significância, ora me subestimam com críticas azedas e me arrancam do pedestal da arrogância na base do tapa. São pessoas distintas, com intenções diferentes, com energias opostas, mas há algo de semelhante entre elas: nenhuma delas tem a dimensão do meu desejo. Ninguém sabe como me sinto diante do meu desejo. Às vezes, nem eu sei do que é capaz esse desejo dentro de mim e isso configura uma guerra interna, intensa e contínua.
 “Ninguém tem obrigação de saber”, eu pensei, enquanto me ajeitava na cadeira pra decidir se fazia ou não o que vem a seguir. O que é paz, o que é guerra? De que é que eles tão falando naquela canção? Que aviso é esse? Novos tempos? Mudanças? Bombardeios? Penso nisso cada vez que ouço a canção de Paulo Monarco e Totonho. Penso nisso cada vez que a canto. Outro dia gravei um vídeo de pijama e meias – exclamei, tentando me impedir – cantando “Bagatelas” e tenho clareza de grande parte das pessoas que visualizou o dito cujo não fazia ideia do que significava aquilo. “Ela canta agora?”, “Olha que legalzinho!”, “Vish, deu uma desafinada boa ali...”. E como saberiam? O negócio é que só eu mesma pra saber a serventia daquilo. Eu sei que era um exercício: exercício de pegar a munição que eu tinha e ir pra guerra. Mas o que é guerra mesmo? A guerra, hoje, é a manifestação do meu desejo de ser, a partir da minha voz, quem eu quero ser – e talvez já seja.
Semana passada senti uma vontade tão grande de cantar que “o clarim tocou pra avisar”¹, mas não tinha ninguém pra me ouvir. Eu não sabia ao certo se queria que alguém me ouvisse ou se queria ser ignorada e na minha cabeça vinha a voz de meu pai: “Canta pra fora, porra!”. Me tranquei no quarto pra esquecer que existia o fora. Queria saber o que era cantar pra fora, mais que nos últimos anos. Era cantar alto? Era cantar bonito a ponto de ser descoberta? Era cantar lá na calçada, no quintal, no limite entre um estado e outro? Era cantar pra fora da regra, da garganta, do peito? Me tirava a paz. Maldito pai, maldita música, maldita Karina e seu desejo de ser colibri sendo gralha. Quando criança, cantava sentada em um pedaço de papelão no campinho de futebol em frente a minha casa, baixinho, canções que eu inventava na hora e tomava o cuidado de sussurrar pra ninguém saber que eu fazia isso quase o tempo todo. Naquela tarde descobri que o que meu pai queria era me avisar que eu não precisava sussurrar, não. Eu precisava mesmo era cantar pra fora do corpo, da cara, do medo da reprovação, da autoestima: pra fora da minha autocrítica ácida, impaciente e impiedosa. Levantei da cama, peguei o celular e decidi fazer outro exercício: gravar a canção que eu tanto queria cantar e tinha medo. Foi ligar a câmera que tive um treco: hiperventilei, tremi, foi tudo ficando escuro, achei que apagaria. Uma tontura, um embrulho no estômago. Desliguei a câmera. Não conseguia levar o desejo a sério. 
Puxei na memória que sempre assistia às interpretes mais notáveis que ia descobrindo nas minhas pesquisas musicais de fim de noite, acompanhando cada milímetro de nota, cada abertura de voz, cada melisma, cada sibilada vacilante, como se eu tivesse nascido “ouvido absoluto” e fosse a sabichona da técnica vocal. A verdade é que eu nunca havia me permitido testar cada erro, isto é, experimentado como era fazer tudo aquilo, como era cantar bem ou mal. Eu não sabia como era sentir a voz em mim, de mim, pra fora de mim. Acho que por muito desejar cantar e respeitar demais essa prática, me tolhia, emudecia a cada timbre ouvido. Comecei a compor porque a música desde sempre foi a coisa mais importante da minha vida, porque eu tinha parado de tocar percussão, porque não tocava violão, porque eu não cantava. Eu tinha parado de tocar percussão por falta de tempo, – coisa que pretendo reverter amanhã mesmo! – não tocava violão por ter já tentando umas 7 vezes e não ter dado lá muito certo... mas por que é que eu não cantava mesmo? Porque era o meu desejo, portanto, uma guerra. E eu, tola, achava que queria paz. O que é paz?
Em São Paulo, cada vez que via uma amiga cantando achava ser possível me alforriar do meu desejo, mas quando ela acabava de entoar a última frase da canção eu já tinha desistido de ser senhora do meu canto. Admirava calada porque era mais fácil que tentar acompanhar. E quantas grandes intérpretes eu não conheci nesse meio tempo? Dandara, Bruna Moraes e Isabela Moraes. Muitas mais e das boas...
Dornelles costumava dizer "fulana canta assim porque tem lama na voz!" e eu sabia exatamente do que ele tava falando. Conversávamos um tempão sobre isso, como se eu já tivesse cantado com a tal da lama me subindo na "guela" e fosse perito no assunto. Só bem depois é que fez sentido. Depois de “A canção se me vem”, em que entrei com a letra e ele com a melodia, senti que precisaria cantar: eu tinha a tal da lama na garganta. Você só pode cantar de forma inteira quando sente por dentro que cantar é a única linguagem possível pra libertar o grito que não sai. O grito que não vai pra tela, pro papel: você tem lama na voz quando se fode, quando aprende sozinha que é a sua missão tomar muito tapa da vida pra se conhecer a fundo e que o grito entalado agonizando precisa sair pela garganta: o grito já não aceita outro caminho pra comunicar o que pretende.
 Já tinha passado uns dias e eu vinha ignorando aquelas ideias advindas da frase de meu pai que reverberara até não poder mais e tentava surdinar devagarinho o clarim tocando dentro do meu peito, mas liguei a TV e começou a passar um documentário que me implodiu. Mesmo. Foi um negócio intergalaticamente lindo. Fui tomada de reflexões, fui destruindo velhas impressões, construindo novos paradigmas, essa coisa toda. O documentário era "Yorimatã", sobre a trajetória de Luhli e Lucina. Não viram? Vejam, sério². Pensem numa luz, numa inspiração existencial: era sobre verdade, coragem, ser e estar, busca, encontro. Me reconheci naqueles desejos – desejos esses que essas mulheres extraordinárias levaram à cabo, materializaram. É claro que conhecia canções de ambas e cogitava que fossem muito importantes pra música brasileira, porém, não conhecia a história, não sabia do tamanho da centelha que elas haviam lançado sobre o mundo. Muiraquitãs de si mesmas atirando sua força em mim. Foi um bombardeio no meu alicerce rígido.
Lucina eu conhecia de vista, afinal, não me lembro em que ano – mas sei que faz tempo – a vi no palco em Ilha³ cantando "O banquete", canção que, diga-se de passagem, fala da naturalidade e da beleza de uma semeadura, e só não é mais doce que o canto de Lucina:"...plantou carinho, deu um pé de manacá, plantou saudade, deu jasmin (...) caju, cajá, goiaba, manga, laranja lima, dor adubou a terra, amaciou o grão, chão se rendeu, se abriu que nem um coração, e o céu regou em cima..." . Não me pegou pelo ouvido, mas pela pele, no arrepio. Era de lascar. Luhli era um nome recorrente na boca dos festivaleiros mais respeitados, um nome cuja artista eu conhecia pouco, mas respeitava por tabela até começar a ouvir. Depois que ouvi, parei de respeitar por tabela e passei a admirar. O jeito de Luhli me fazia querer ouvi-la por horas, inebriada, depois me jogava em Tetê Spíndola, Alzira E, Joyce Moreno, Suzana Sales...eu batia no teto e voltava pro chão com aquelas imagens que vinham adornadas de sons.
Sei que depois do documentário o que ainda faltava pra eu cantar pra fora, foi-se. Foi tarde. Antes tarde do que nunca e fui mandando às favas a obrigação de ser uma cantora fabulosa, ser aquela intérprete que veio pra arrebentar com o coração de meio mundo, a dona do dom, o prodígio. Aceitei meu desejo: sou uma compositora que quer registrar e cantar o que faz, o que sente, o que vive. Compositora. Como pesa dizer isso – e sei que pesa ainda mais porque tem gente que já duvidou, e muito, dessa possibilidade. Pesa como pesava dizer "sou artista", “sou escritora”, “sou psicóloga”. E isso de pesar foi vindo com o tempo, com a mania de achar que as pessoas só respeitam a gente quando a gente diz por aí que não, que tá aprendendo ainda, que não sabe bem pr'onde vai, que tudo é transitório. Aquela coisa que a gente pensa que é modéstia e humildade, mas se a gente não cuida e não se atenta pra linha tênue, vira auto boicote.
Pois bem, eis-me aqui ré confessa: vou cantar pra fora da iminência do erro, cantar pra fora da aporrinhação de acertar. O clarim, hoje, depois de toda a dor, tocou pra avisar que devo seguir e fazer o melhor que puder, por mim, pra me encontrar com minha guerra e voltar dela em paz. Passei o dia pensando no quanto tem sido maravilhoso dar a cara a tapa e tentar o que tinha evitado esses anos todos, mesmo desejando, mesmo crendo ser possível. E é porque eu quase desisti do que me move, do que me faz sentir viva, que venho me expor e falar da minha gratidão.
Cada gênio que abraça uma letra minha e se convida pra fazer parte (Marinho San e Cícero Golçalves, caras que reverencio, que honra tê-los como novos parceiros), cada amiga foda que além de ser a voz que me anuncia antes de eu cantar e fala dessa coisa de desistir* (Guidinha, obrigada por cantar “Lumiáfora” e me ajudar a criar “Concha”), cada lindeza que a vida me deu e que também tenta cantar pra fora (Mirian e Sandra Brito, lhes amo bem muito), cada parceiro de muitas canções que também faz a vez de produtor e transpõe em melodias meus delírios (André Fernandes, seu doido varrido, você sabe que a culpa é sua, mais que de qualquer outra pessoa!), cada artista conterrâneo que acolhe e transforma em canção a amizade antiga (Hugo Brasarock, como te respeito, cara!), enfim, cada grão de força humana é uma pitada de luz no meu caminho. Cantar pra fora envolve ser ouvido, não por um grande público, mas por si mesmo e por aqueles que amamos e admiramos. Também sou muito grata a quem não está presente e não vai estar nunca...me fazem encarar a guerra que é o meu desejo, me obrigam a provar todo dia o gosto amargo que a insegurança tem e me empurram pros meus abismos, pra que eu arranje um jeito – de última hora – de me salvar. Vocês que desacreditam de tudo, que não leem nas entrelinhas do meu silêncio, são parte da lama que preciso ter entalada na garganta pra cantar inteira, pra disparar as balas do meu descontentamento no alvo certo. 

Se vou à guerra é porque quero me encontrar com ela!



  
¹ "O Clarim", de Paulo Monarco e Totonho: 
https://www.youtube.com/watch?v=q1X7hsXZ1Ws

² Link do Yorimatã (doc): 
https://www.youtube.com/watch?v=UXscnmlYi7w

³ Festival Nacional de MPB de Ilha Solteira (SP).

*"Outra hora  (agora, não)" de Guidi Vieira: 
http://outralinguaoutrostextos.blogspot.com.br/2017/08/outra-hora-agora-nao.html

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